Crescimento dos afastamentos por vício em apostas acende alerta sobre impacto na Previdência Social

 
 
Caio Prates, do Portal Previdência Total
 
O crescimento acelerado dos casos de dependência em apostas esportivas e jogos online começa a produzir reflexos que vão além da saúde mental e do endividamento das famílias. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram um aumento expressivo na concessão de benefícios por incapacidade temporária relacionados à ludopatia, fenômeno que especialistas avaliam como um novo fator de pressão sobre a Previdência Social.
 
Entre 2023 e 2025, o número de auxílios por incapacidade concedidos em razão do transtorno aumentou mais de 2.300%. Foram 276 benefícios em menos de dois anos, enquanto, entre 2015 e 2022, a média anual era de apenas 11 concessões. Embora os números absolutos ainda sejam pequenos diante do universo de benefícios pagos pelo INSS, especialistas afirmam que a tendência merece atenção.
 
Segundo o advogado especialista em Direito Previdenciário, João Badari, sócio do escritório Aith, Badari e Luchin Advogados, o crescimento dos afastamentos revela uma mudança importante no perfil das doenças que afetam a capacidade laboral. "A Previdência Social sempre funcionou como um importante termômetro das transformações sociais. Antes de se tornarem crises estruturais, diversos problemas começam a aparecer de forma discreta nas estatísticas de afastamentos. O aumento dos benefícios relacionados à ludopatia indica que estamos diante de um fenômeno que ultrapassa o âmbito individual e passa a gerar impactos econômicos e previdenciários", afirma.
 
De acordo com o especialista, a maior preocupação está no perfil dos segurados afastados. Cerca de 80% dos casos concentram-se entre pessoas de 18 e 39 anos, justamente a faixa etária considerada mais produtiva do mercado de trabalho. "São trabalhadores que deveriam estar contribuindo para o sistema previdenciário e movimentando a economia. Quando deixam suas atividades em razão de um transtorno mental incapacitante, há uma dupla consequência: diminui a arrecadação e cresce a necessidade de pagamento de benefícios", explica Badari.
 
Reflexos nas empresas
 
Para o advogado trabalhista Ruslan Stuchi, o avanço da ludopatia também começa a preocupar empregadores, especialmente pelos impactos sobre produtividade, absenteísmo e saúde ocupacional.
 
Segundo ele, o vício em apostas pode desencadear uma série de transtornos psicológicos que comprometem diretamente a rotina profissional. "As empresas já convivem com um crescimento expressivo dos afastamentos relacionados à saúde mental. A dependência em apostas passa a integrar esse cenário porque pode provocar ansiedade, depressão, alterações comportamentais e perda significativa da capacidade de concentração, afetando tanto o desempenho quanto a segurança no ambiente de trabalho."
 
Stuchi ressalta que o tema também deve ser incorporado às políticas de prevenção previstas pela legislação trabalhista. "A discussão não pode ficar restrita ao momento em que o trabalhador já está incapacitado. Programas de saúde mental, ações educativas e canais de acolhimento tornam-se instrumentos importantes para identificar situações de risco antes que elas evoluam para afastamentos prolongados. A prevenção é sempre menos onerosa do que lidar com os efeitos do adoecimento."
 
Debate vai além da arrecadação
 
Especialistas observam que a expansão das plataformas de apostas costuma ser analisada principalmente sob a ótica da arrecadação tributária. No entanto, os custos indiretos relacionados à saúde pública, à Previdência Social e à redução da produtividade também precisam entrar nessa conta.
 
Além do pagamento de benefícios previdenciários, trabalhadores afastados deixam de contribuir para o sistema, enquanto cresce a demanda por atendimento psicológico, psiquiátrico e outros serviços públicos de saúde.
 
Para Badari, o desafio exige uma atuação integrada entre diferentes áreas do poder público. "A Previdência foi criada para proteger o trabalhador quando a incapacidade acontece. Mas, diante da ludopatia, não basta apenas administrar as consequências. É preciso investir em prevenção, educação financeira, tratamento especializado e uma regulamentação eficiente das apostas para evitar que cada vez mais jovens economicamente ativos passem a depender da proteção previdenciária."
 
Enquanto o mercado de apostas segue em expansão no país, especialistas alertam que o impacto econômico da ludopatia tende a crescer caso políticas públicas de prevenção e tratamento não acompanhem a velocidade desse novo fenômeno social.


Vídeos

Apoiadores